Antes de mais, peço perdão por não ter tido hipótese ainda de responder aos vossos comentários, visitar os vossos blogs e actualizar este blog. Por motivos profissionais, não tem sido possível.
Hoje tenho para vos apresentar a tradução para Português e Inglês de um excelente artigo da autoria do Costureiro/Alfaiate profissional Paco Peralta de Barcelona. O Paco fez um levantamento exaustivo das técnicas de confecção da estrutura interior que costuma aplicar nas jaquetas e casacos, com enfoque na gola e lapelas, que são um dos aspectos mais desafiantes da confecção estilo Alfaiate. Felicito-o por um trabalho excepcional e pela valiosa contribuição para enriquecer os conhecimentos dos aficionados de costura em todo o mundo.
CONFECÇÃO ESTILO ALFAIATE por Paco Peralta

A obtenção de um cair perfeito numa peça confeccionada com métodos de alfaiate não depende exclusivamente da escolha certa do tecido, da prova e do domínio e aplicação de técnicas de costura avançadas. A escolha cuidada da estrutura de suporte interior (forro de empastar, entretelas, chumaços, etc.) é muitíssimo importante. Embora não seja visível no lado direito da peça, esta estrutura deve ser construída com muito esmero. Para jaquetas e casacos leves é aconselhável o uso de entretelas tecidas leves. Para jaquetas e casacos mais grossos, a melhor escolha é entretela de crina (normalmente uma mistura de crina com lã, também conhecida como entretela de alfaiate). Também é aconselhável o reforço das peças em tecido com forro de empastar (em inglês “underlining” e em francês “triplure”).
As fotos seguintes ilustram os passos de confecção para obter uma óptima estrutura de suporte.
Se estivermos a utilizar um tecido leve como veludo, bouclé, etc. devemos reforçar todas as peças em tecido com forro de empastar. Neste caso optei pela utilização de uma entretela termo-colante bi-elástica de malha de nylon (“nylon fusible knit”), que estabiliza o tecido sem alterar o seu cair (foto 1 e 2)


Depois de unir as diferentes partes da frente (painel central, painel intermédio e painel lateral, neste caso), temos de aplicar a entretela de alfaiate à frente inteira (foto 3).

Quando utilizamos entretela tecida, é muito importante certificarmo-nos que o correr do fio da entretela coincide com o correr do fio na parte central da frente (que normalmente coincide com a marca de centro-frente). A entretela é alinhavada ao tecido (pontos de alinhavos compridos, a direito e em diagonal), ao longo da orla da frente, dobra da lapela, etc. (vejam a foto 4).

Fazemos um pequeno corte à altura do peito (foto 5) para podermos dar a forma correcta a esta área.

A fixação da entretela ao tecido na zona da lapela (foto 6) é feita recorrendo a “pontos de enchumaçar” e deve começar uns milímetros passando da linha da dobra da lapela. É muito importante que ao segurar a lapela na nossa mão para enchumaçar, a coloquemos sobre a nossa mão esquerda (entre o indicador e o polegar, que segura a entretela e o tecido juntos) de forma a manter uma forma arredondada enquanto se enchumaça. Como consequência, o tecido em baixo será mais curto que a entretela em cima e a forma redonda é fixada de forma permanente. Os pontos de enchumaçar quase que não se vêm no lado do tecido por baixo (só se apanha um ou dois fios do tecido por baixo da entretela). Os pontos de enchumaçar são pontos curtos em espinha em linhas alternadas para a esquerda e para a direita; estas linhas são paralelas à linha da dobra. Não se devem enchumaçar as margens de costura.

Para a gola (parte de baixo) o processo é o mesmo. Tanto a gola de baixo em tecido como a entretela são cortados em viés com uma costura no meio de trás (foto 7 e 8)


A gola de baixo vai ser enchumaçada de forma semelhante às lapelas. Pessoalmente prefiro fazê-lo seguindo uma direcção longitudinal, cosendo umas tantas linhas de pontos de empastar junto à base da gola e continuando a coser em linhas paralelas e alternadas, mantendo a forma arredondada da gola, até atingir a orla exterior da gola (foto 9 e 10). Há outra forma de fazer isto, que é começar a enchumaçar do centro da gola numa direcção oblíqua até às pontas.


Uma vez que esta operação está concluída, podemos observar que sobra um pouco de tecido debaixo das orlas da entretela; este sobrante deve ser aparado para que as margens do tecido coincidam com as margens da entretela (fotos 11 e 12).


Em seguida apara-se a entretela até às linha de costura (retiram-se as margens à entretela) (fotos 13 e 15).



Finalmente fixa-se a entretela com pontos espinho (também chamados de pontos de escapulário) ao longo das margens das cavas (foto 14) e fixa-se ao longo das costuras verticais da frente usando pontos de alinhavar longos e em diagonal (foto 15).
Na foto 16 podemos observar o resultado dos passos anteriores e a forma permanentemente arredondada obtida na gola e nas lapelas.

Para reforçar as orlas da beira da abertura, da lapela e da sua parte superior e a linha de dobra, cose-se à mão fita espinhada própria para o efeito (depois de molhada e seca para encolher) sobre a entretela, um dos bordos coincidindo com a linha de costura. Ambas as beiras da fita são cosidas à entretela com um ponto de luva inclinado, terminando na orla inferior da frente (fotos 17 e 18):


Se for necessário um reforço adicional na zona superior do peito, podemos acrescentar um pedaço de “guata” de alfaiate ou entretela forte desde a linha de dobra da lapela. Simplesmente fixamos este reforço com uns pontos de alinhavo, deixando por terminar a fixação nos ombros e nas cavas que será acabada quando se colocarem as mangas (foto 19 e 20). Nesta altura cosemos as costuras dos ombros, unindo a frente às costas.


Na foto 21 podemos apreciar o aspecto do nosso trabalho até ao momento:

Nesta fase é conveniente fazer as casas de botão avivadas na frente direita (no caso de jaquetas ou casacos femininos).
Em seguida uniremos a parte de cima da gola às vistas da frente (ambas vistas e gola reforçadas com entretela). As vistas são cosidas ao longo da orla da frente e lapelas, direito da vista contra o direito da frente, terminando no ponto de colocação da gola (foto 22).

É muito importante fazer uns pontos de reforço curtos na diagonal na ponta da lapela (foto 23) de forma a arredondar esta ponta. Isto vai assegurar uma ponta perfeita depois de virar.

As costuras são passadas a ferro abertas usando uma tábua de mangas ou uma tábua especial de alfaiate. As margens são gradadas e golpeadas onde necessário, incluindo nos cantos em diagonal (foto 24)

Depois as vistas são viradas para o direito e as beiras são alinhavadas e passadas a ferro, mantendo a forma arredondada das lapelas e da gola. A parte superior da cola é cosida ao decote e a beira interior da vista é cosida com pontos espinho largos à entretela (foto 25).

Agora chegámos ao momento de coser a parte de baixo da gola à parte de cima e o processo é o mesmo que nas vistas/lapelas: as costuras são passadas abertas, gradadas, golpeadas, etc. A parte inferior da gola é então cosida à mão ao decote, virando os valores de costura para dentro e fazendo uns pontos invisíveis (fotos 26 e 27). Depois de terminar a restante construção da jaqueta (mangas, bainhas, etc.) estamos prontos para dar uma passagem a ferro final e prosseguir com a confecção do forro.


Depois de um processo tão moroso e quase todo manual, podemos dar um certo ar “vintage” ou “Couture” à nossa jaqueta/casaco se aplicarmos o forro de forma artesanal. Depois de construir o forro, este é preso com alfinetes ao longo das orlas do decote, vistas e bainhas e cosido à mão com pequenos pontos invisíveis (foto 28).

A foto 29 ilustra o resultado final para uma gola estilo alfaiate desportiva:

ESTRUTURA INTERIOR USANDO ENTRETELAS TERMO-COLANTES
Se desejarmos fazer a nossa peça (jaqueta ou casaco) usando métodos mais expeditos e não menos eficazes, podemos usar entretelas termo-colantes. A seguir é mostrado o processo de confecção usando este tipo de entretelas:
Colamos a entretela a ferro em todas as peças de tecido que o requeiram (meio da frente, painéis laterais, vistas, gola, bainhas, etc.). Também colamos a ferro fita de reforço termo-colante nas cavas, lapela e orlas da frente. Uma boa prática é aplicar a fita nas partes que não fiquem viradas para o exterior depois da jaqueta terminada, que neste caso são a lapela na peça da frente e a orla da frente na vista (foto 30).

Neste caso também adicionei um reforço de peito que pode ser fixado na linha da dobra da lapela ao mesmo tempo que se aplica aqui uma fita termo-colante. Para este efeito usei fita de 2cm de largura (fotos 31 e 32). Uma tira de entretela fina cortada no correr do fio também pode ser usada para este efeito.


Prossegue-se como explicado anteriormente: aplicando as vistas à frente (fotos 33 e 34), fazendo o tratamento das costuras (foto 35), etc.



Neste caso particular, podemos aplicar a vista da frente com o forro já cosido à orla interior da vista. As margens de costura devem ser fixos no avesso com uns pontos espinho largos (foto 36)

Como bónus extra vou explicar uma forma muito fácil de aplicar a gola e que resulta num acabamento excelente.
Precisamos de uma parte de baixo da gola comprada feita (pode adquirir-se nas lojas da especialidade e consiste numa gola feita em feltro, já com a entretela aplicada). Também vamos precisar de cortar uma parte superior da gola com umas margens nos extremos de cerca de 4cm.
Em seguida aparamos os valores de costura da parte de baixo da gola (foto 37)

A parte de baixo é cosida com um ponto de ziguezague estreito à parte de cima da gola (pelo lado direito), coincidindo a costura com a orla da parte de baixo da gola (foto 38).

Vira-se a parte de baixo para debaixo da gola e cose-se à orla do decote usando pontos diagonais (foto 39)

Finalmente giramos os extremos (os que têm as margens de 4cm) para baixo na parte de baixo da gola e fixamos com pontos invisíveis à mão (foto 40).

A foto 41 mostra o resultado obtido com este método:

CONCLUSÃO: Como é óbvio estas duas técnicas não são rígidas nem mutuamente exclusivas. Não nos podemos esquecer de efectuar testes pois há muitas variáveis que podem influenciar a escolha do melhor método a aplicar em cada situação, tais como o tipo de tecido e o modelo escolhido, etc. Na maior parte das situações aplicamos uma combinação de ambos os métodos (tradicional e contemporâneo), indo ao encontro das nossas necessidades, material disponível, tempo e habilitações em termos de técnica.
Artigo em Castelhano: blog “Paco Peralta”Artigo em Inglês também no The Great Coat Sew Along (aberto apenas a participantes)